
O figurino na minha vida
O figurino apareceu na minha vida em 1996, com o Grupo Z de Teatro, ES. O dramaturgo e diretor Fernando Marques havia montado o grupo e me contou sobre a primeira peça: O maior espetáculo da terra!
Eu perguntei: “quem vai fazer o figurino?”
Ele respondeu: “você”.
O processo criativo desse espetáculo me levou às minhas raízes. Como referência, usei o matelassê, que minha mãe fazia quando eu era criança. Do matelassê, fui para o patchwork, em que vários pedacinhos de retalhos juntos contariam o grande legado, bagagem e histórias do circo. Foi um processo que me levou para dentro de mim para que depois eu pudesse emergir.
Processo criativo
1 - Leio o texto;
2 - assisto ao ensaio após a montagem estar em curso. Escuto os diretores, qual a proposta e o tom do espetáculo. Quando pergunto à direção do grupo sobre o tom, obtenho respostas como "carne", "cru", "cimento", "concreto" e por aí vai. A afinidade é tanta que não precisamos falar muito e o trabalho segue com a mesma alma. Trocamos impressões e definimos o conceito do espetáculo;
3 - leio o texto novamente. Primeiro, faço uma composição visual do todo, do espaço inclusive, para depois compor cada personagem. De acordo com o texto, analiso se há algum item ou objeto específico que deve ser materializado no figurino ou no cenário; se há uma época específica a ser retratada e se o trabalho tem uma estética realista/naturalista ou não.
Referências para criar
A História da Arte é a minha grande referência. A pintura é minha grande fonte de pesquisa. Escolho o pintor de acordo com as emoções que as obras dele me proporcionam. Pesquiso vários pintores e me permito sentir, intuir. Durante o processo de pesquisa e de contemplação dessas obras, quando me deparo com obras que me transmitem a mesma emoção/sensação da montagem, exploro! Normalmente são dessas obras que saem a paleta de cores do espetáculo. Ou cor nenhuma.
Fatores determinantes no
processo com o grupo z
1 - A carga política e social que as montagens do grupo trazem me tocam e emocionam profundamente. Essa emoção, seja ela qual for, está impregnada no meu trabalho;
2 - dramaturgia e trabalho de corpo fortíssimos. Essa é a marca do Z sob o meu interessado ponto de vista. Os corpos contam histórias e os textos são desenhados no ar. O figurino entra nessa dança, dando suporte e espaço;
3 - liberdade pra criar. A direção do grupo confia em mim. Não na minha perfeição, mas na minha coragem, vontade e capacidade de encarar o processo.
O meu trabalho pressupõe o público como coautor. Não o subestimo nem o aprisiono em estereótipos.
Moda e figurino
Após anos fazendo figurino, me aventurei no mundo da moda. Foi uma época de grande aprendizado da natureza humana. Criei muito e ampliei vastamente meu conhecimento sobre modelagem, corte e costura. Esse foi um dos grandes ganhos. O grande desafio é produzir moda de uma forma sustentável, sendo que, sustentável mesmo é não consumir. E justamente por ser desafiador, me interessa. Pensar não só o design, mas toda a cadeia produtiva e formas de fazer.